Vai nascer um cineclube em Leiria

Surge como uma resposta ao encerramento dos complexos de cinema da cidade, mas também para divulgar programação independente e promover filmes com menor circulação. O Cineclube de Leiria abre portas no sábado.
Agência Lusa
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16 abr. 2026, 09:05

O Cineclube de Leiria “era um desejo antigo” que ganhou mais premência depois do encerramento dos complexos de cinema que existiam em dois centros comerciais da cidade, explica Sal Nunkachov, que, com Edite Santos e Raquel Quintino, forma o trio de fundadores.

“Depois da tempestade, perdemos a única sala que tínhamos dedicada ao cinema, que já de si tinha cinema mais convencional”, diz, acrescentando que a intenção é apostar em alternativas ao circuito comercial de cinema.

“Estamos a querer-nos afastar do que o cinema se tem tornado - uma indústria -, afastando-nos dessa ideia de cinema de entretenimento. Queremos um cinema que obriga a ter tempo. E depois esse tempo potencia uma reflexão. É esse o objetivo principal deste tipo de trabalhos que vamos apresentar”, afirma.

Em fase de instalação e de definição de estratégias, o novo cineclube propõe-se “divulgar um cinema com menos circulação”, seja “porque são primeiras obras, extensões de festivais menores, filmes que caíram em desuso, filmes do protocinema - de 1910, 1920, etc. - ou obras de videoarte, filmes de Super 8 caseiros”.

“Todas estas coisas não têm lugar, normalmente, nos cinemas. E essa será uma das partes que tentaremos divulgar, não somente, mas essencialmente”, avança Sal Nunkachov, que admitiu outras linhas de programação, após perceber a motivação do público.

As primeiras sessões vão contribuir para afinar a estratégia: “Embora tenhamos um interesse próprio, estar num sítio implica perceber que dinâmicas podem ser feitas. Teremos de auscultar as pessoas, ver o que faz falta e tentar entregar algum cinema porque, lá está, ficámos sem ele”.

Sal Nunkachov considera que “Leiria tem alguma deficiência cultural que tem de ser colmatada” e o cineclube é uma tentativa de resposta.

“Cabe à população criar uma programação independente, associando-se”. 

A primeira sessão, no sábado, a partir das 21h30, acontece nas instalações da empresa Void, no Centro Comercial D. Dinis.

Além da apresentação do projeto, há performance com textos musicados e projeção de filmes de família em formato Super 8, que Sal Nunkachov tem encontrado em feiras nacionais e no estrangeiro.

“Esses filmes são muito interessantes, porque oferecem uma visão doméstica do mundo. Vemos carros que já não existem, fachadas de edifícios que não coincidem com o que vemos hoje nas cidades, o próprio modo de vida. Há uma certa dose de antropologia e sociologia, política, inclusive, que se podem observar nessas coisas, que são muito interessantes”, descreveu.

Algumas das películas remetem para o 25 de Abril e revelam “uma visão caseira” da revolução, “fora da visão dos fotógrafos, quase sempre profissionais”.

Em Leiria, o Cineclube terá sessões quinzenais, mas também vai circular pelo país.

No dia 24 de abril leva os filmes Super 8 à Barraca, em Lisboa, e também há outras colaborações previstas com cineclubes de Braga e das Caldas da Rainha.