Um "som celestial que chega ao coração": maior carrilhão itinerante do mundo tem portuguesa pioneira à frente
O carrilhão LVSITANVS, como foi apelidado numa homenagem ao povo português, tem 63 sinos em bronze e pesa 15 toneladas. “O nosso maior sino tem 1300 quilos, normalmente os carrilhões itinerantes não têm esse sino, e o mais leve tem cerca de cinco quilos e meio”, explica Ana Elias, a primeira carrilhanista portuguesa. E responsável, acrescente-se, por aquele que é o maior carrilhão [instrumento musical de percussão composto por sinos de bronze afinados cromaticamente, tocados através de um teclado manual ou pedaleira] itinerante do mundo.
“O meu repertório de concerto é muito variado, vai desde a música clássica, Beethoven, a ‘Primavera’ de Vivaldi, até ao fado, músicas dos Queen, por exemplo", revela. Tem "também uma música dos Metallica, para conseguir chegar a todos os públicos, porque quando estamos a tocar ao ar livre toda a gente num raio de cinco quilómetros é obrigada a ouvir-nos, por isso ao menos que tentemos chamar a atenção com um bocadinho de tudo", conta em entrevista ao Conta Lá.
Numa arte que vai mais além do que tocar sinos, a descoberta do carrilhão foi o resultado de uma busca incessante de Ana pela melodia certa. Tudo começou aos seis anos, quando o pai a levou ao médico "porque pensava que eu tinha alguma incapacidade auditiva, uma vez que não cantava as músicas das crianças, só gostava de ouvir música clássica”.
“Na altura, o médico fez todos os testes e estava tudo bem mas requisitou-me aulas de música e foi aí que tudo começou. Aos 6 anos comecei a ter aulas de música na minha terra, em Alverca”, recorda Ana Elias. Primeiro contactou com o órgão eletrónico, depois passou para o piano, com a entrada no Instituto Gregoriano de Lisboa. Aí, não conseguia escolher entre os vários instrumentos que tocava, desde a flauta de bisel, a bateria, a guitarra, “porque um instrumento só não me chamava a atenção”. Até que um dia, “nas paredes do instituto, estava um anúncio a promover aulas livres de carrilhão”.
Horas sozinha
“Eu não sabia muito bem o que era, fui perguntar à secretaria, disseram-me para ir ver a tal sala e lá estava – não era bem um carrilhão, era um teclado de estudo – e fiquei fascinada porque parecia uma enorme máquina de matraquilhos”, recorda Ana Elias. A entrada nas aulas de carrilhão fez crescer a paixão pelo instrumento de percussão e levou-a, com apenas 15 anos, a conseguir tocar no Carrilhão de Mafra, “o único que existia em Portugal na altura”. Mais tarde, o instrumento foi levado para as caves da Secretaria de Estado da Cultura, em Lisboa, onde mesmo assim Ana ficava recolhida, longe do mundo, “horas sozinha a treinar”.
Hoje, aos 52 anos Ana Elias é uma das duas únicas mulheres carrilhanistas em Portugal. A segunda é a sua irmã, Sara Elias, cujo gosto foi passado por Ana quando praticavam juntas em Mafra, enquanto “os turistas que descobriam o Palácio Nacional elogiavam o som que vinha do carrilhão”.
Mas a ida atrás sonho não ficou por aqui. Ana Elias acabou por ganhar uma bolsa de estudo que a levou a interromper a formação superior que tirava em engenharia e a rumar à Bélgica, onde durante sete anos aprofundou os conhecimentos sobre o instrumento, tornando-se a segunda mulher europeia com mestrado em carrilhão.
“Voltei, terminei engenharia, mas o meu pai vira-se para mim e disse ‘E agora? Estiveste estes anos todos a investir no carrilhão e isto não pode ficar por aqui’. Já havia um carrilhão no Porto, do carrilhanista Abel Chaves [o primeiro carrilhanista português] mas a distância era grande então começámos na procura por um brinquedo destes, carrilhões itinerantes”, recorda.
Foi então em 2015 que a família Elias trocou Alverca pela pacata vila poema de Constância e aí fundou a associação CICO – Centro Internacional do Carrilhão e Órgão, onde adquiriu aquele que hoje é reconhecido como o maior e mais pesado carrilhão itinerante do mundo. “Para mim, é mais importante a qualidade sonora que o instrumento tem do que realmente ser o maior do mundo. É uma responsabilidade, claro que sim, mas o mais importante é o tipo de música que se toca neste instrumento e a qualidade sonora dos sinos”, admite Ana Elias.
Arte interligada
Um peso que não o impede de correr o país em concertos, numa tentativa de dar a conhecer um instrumento com uma sonoridade peculiar. “É um som celestial, por vezes um pouco melancólico, ao mesmo tempo cristalino, e que nos chega ao coração. É muito difícil de explicar, mas a verdade é que o som dos sinos é uma coisa que também está no nosso ADN, desde pequenos que conhecemos o sino da igreja a dar as badaladas das horas, a chamar para a missa e há qualquer coisa de especial nessa melancolia e nesse som tão doce e envolvente”, reflete.
E é para dar a conhecer o som dos sinos do LVSITANVS que, através da CICO, Ana Elias passa o gosto aos mais jovens com aulas de carrilhão. Neste momento, são três os aprendizes, duas raparigas de 9 e 15 anos e um rapaz de 12 anos. A mais crescida é Ana Sofia Pereira. Em treino para o próximo exame de carrilhão, refere ao Conta Lá que começou o caminho na música aos seis anos, no piano.
“Mas depois achei piada ao carrilhão e gosto mais, é mais desafiante”, diz. Se bem que “é mais difícil, porque temos de mexer as mãos e os pés de um lado para o outro sem falhar”, confessa. Numa arte interligada entre mãos, pés e ouvidos apurados, a melodia do carrilhão ecoa hoje por entre as águas unidas dos rios Tejo e Zêzere, em Constância, onde repousa até ao próximo concerto, sempre à espera de um curioso que queira experimentar uma aula aberta e levar este instrumento mais além.
“Nós promovemos o Festival Internacional do Carrilhão e do Órgão, trazemos carrilhanistas e organistas internacionais, o trabalho está feito, só falta certificar. É um dos nossos objetivos é tornar o curso de carrilhão oficial em Portugal, porque o que falta é a certificação do Ministério da Educação para tal”, admite Ana Elias.