Pecuária regenerativa: novo ciclo de webinars quer acelerar mudança no setor agrícola

A pecuária regenerativa continua a ganhar espaço no debate sobre sustentabilidade, mas a sua adoção em Portugal ainda é limitada. A Food4Sustainability lança um novo ciclo de webinars, a começar a 16 de abril, para aproximar ciência, produtores e mercado, e acelerar a mudança no setor agrícola.
Mariana Moniz
Mariana Moniz Jornalista
15 abr. 2026, 08:00

Apontada como uma das respostas para tornar a agricultura mais sustentável, a pecuária regenerativa continua, em Portugal, longe de sair do nicho. Entre ceticismo, falta de clareza conceptual e dúvidas sobre o retorno económico, a adoção deste modelo tem avançado de forma lenta, mesmo num contexto de crescente pressão para transformar o setor agrícola.

A necessidade de conciliar produção alimentar com preservação ambiental tem vindo a ganhar peso no debate público e nas políticas europeias, colocando novos desafios aos produtores. Ainda assim, a transição para práticas regenerativas continua marcada por incertezas e por uma ausência de referências económicas claras.

É neste cenário que a Food4Sustainability lança um novo ciclo de webinars dedicado ao tema, com início a 16 de abril, procurando aproximar ciência, prática e mercado, e acelerar a criação de uma comunidade ativa em torno desta abordagem.

Da teoria à prática: aproximar ciência e agricultores

Um dos principais bloqueios à mudança está na distância entre o conhecimento científico e a sua aplicação no terreno. A iniciativa aposta precisamente em encurtar essa ligação, reunindo diferentes perfis em cada sessão para garantir que a discussão não fica no plano teórico.

“Aliamos divulgação da ciência como fonte de credibilidade da informação à criação de redes entre os diferentes agentes, num ambiente de confiança e informal. Em cada sessão procuramos a lógica de três apresentadores – academia, piloto e mercado – integrando, em cada sessão, pelo menos um investigador, uma spin-off e uma entidade já centrada no mercado”, explica Cláudia Costa, diretora da F4S Academy, ao Conta Lá.

Ao cruzar investigação, projetos-piloto e empresas, os webinars procuram demonstrar como o conhecimento científico pode ser traduzido em soluções concretas para o setor. O objetivo passa por facilitar a adoção de práticas mais sustentáveis, reduzindo a distância entre quem produz conhecimento e quem o aplica.

Esta lógica integra-se numa estratégia mais ampla de criação de redes de partilha entre agricultores, investigadores e empresas, vista como essencial para sustentar mudanças consistentes no setor.

Adoção lenta, mas com experiências pioneiras

Apesar do crescente interesse, a pecuária regenerativa continua longe de ser uma prática generalizada. A falta de definição clara do conceito e a dificuldade em demonstrar benefícios económicos concretos continuam a travar a adesão.

“A pecuária regenerativa continua a ser, na generalidade, uma abordagem de nicho, o que é compreensível face ao ceticismo existente, à confusão do próprio conceito e à ausência de benefícios económicos claros num caminho de transição pré-definido”, admite Cláudia Costa.

Ainda assim, começam a surgir sinais de mudança, com produtores e projetos que testam novas abordagens e contribuem para construir conhecimento aplicado. A experimentação e a partilha de resultados são apontadas como passos fundamentais para ultrapassar a fase inicial de resistência.

Nesse processo, ganha relevância uma nova forma de olhar para o papel dos animais nos sistemas agrícolas. “A utilização estratégica dos animais como parte integrante do sistema de regeneração, olhando-os como biorreatores móveis capazes de, com eficácia, construir matéria orgânica – um dos recursos mais escassos da agricultura nacional”, descreve a diretora.

Sustentabilidade só avança com retorno económico

Apesar dos benefícios ambientais associados, a adoção de práticas regenerativas esbarra frequentemente na realidade económica das explorações. Custos iniciais elevados, margens reduzidas e incerteza quanto ao retorno continuam a ser obstáculos determinantes.

“A transição continua limitada por alguns obstáculos estruturais: a falta de informação clara e acessível, a confusão em torno de conceitos como ‘regenerativo’, ‘agroecologia’ ou ‘sustentável’, e a dificuldade em traduzir ganhos ambientais em evidência económica robusta”, aponta Cláudia Costa.

Sem garantias de viabilidade, a mudança tende a ser adiada, mesmo quando os impactos positivos no solo, na biodiversidade e na eficiência dos recursos são reconhecidos.

“A pecuária regenerativa só ganhará escala quando demonstrar claramente que melhora a saúde do solo, a biodiversidade e a resiliência dos sistemas, ao mesmo tempo que reduz custos com insumos [todos os recursos, materiais, energia, mão de obra e tecnologia utilizados no processo de produção de bens ou serviços], aumenta a eficiência das pastagens e abre portas a mercados diferenciados e prémios de qualidade”, conclui.

No equilíbrio entre sustentabilidade ambiental e rentabilidade económica joga-se, assim, o futuro deste modelo. É nesse ponto, ainda por consolidar, que poderá deixar de ser uma prática de nicho para ganhar verdadeira escala no setor agrícola.