“A viagem de comboio mais bonita da Europa." O olhar dos turistas que viajam na Linha do Douro

Na Linha do Douro, o turismo domina a paisagem dentro do comboio. Fizemos a viagem e encontrámos turistas britânicos, alemães, franceses e até da Tailândia. Entre os estrangeiros, há portugueses que regressam para reviver memórias, num percurso onde história, paisagem e identidade continuam lado a lado.
 
João Nogueira
João Nogueira Jornalista
16 abr. 2026, 08:00

Máquinas fotográficas apontadas às janelas, telemóveis erguidos a cada curva, conversas em inglês, francês ou alemão que se misturam com o som alto e contínuo dos carris. Ao longo do percurso entre o Pocinho, o Pinhão e a Régua, feito pelo Conta Lá poucos dias depois da Páscoa, o cenário fica claro: a paisagem impõe-se e o turismo acompanha. 

São hoje os visitantes estrangeiros que assumem o papel principal na Linha do Douro, ocupando a maioria dos lugares e deixando-se levar pelo espetáculo da paisagem. Mas não estão sozinhos: há outros papéis em palco, dos locais e dos viajantes nacionais, que continuam a dar sentido a esta viagem.

“Dizem que é a viagem de comboio mais bonita de Portugal. Talvez até da Europa”. Quem o diz é a britânica Phoebe Davis, que decidiu fazer o percurso depois de o descobrir num guia. Ao seu lado, o marido, Brian, concorda: “A paisagem é incrível. E o comboio é mesmo antigo. Parece que estamos a viajar no passado”.

Os elementos no interior das carruagens, desde os bancos gastos às janelas largas e aos revestimentos de outros tempos, contribuem para a experiência. E quem viaja naquele comboio reconhece que há neles uma autenticidade difícil de replicar. “A locomotiva deve ter mais do que a minha idade”, partilhou com o Conta Lá o britânico Stewart.

O turista, natural de Essex, é um entusiasta da ferrovia e foi até à Linha do Douro de propósito: “É uma forma fantástica de ver o Douro. É completamente diferente do que se vê no rio”, disse, explicando que já tinha feito a travessia de barco pelo rio.

Foi a historicidade do traçado que também levou Peerayut, da Tailândia, a viajar no comboio do Douro. Descobriu a viagem no YouTube, mas encontrou mais do que esperava. “Ao vivo é muito mais bonito”, disse o turista, acrescentando que o tempo ajudou, uma vez que esteve ameno e agradável para fazer o roteiro.

 

“É importante para a região e para a economia”

Quem viaja na locomotiva, percebe que o turismo se tornou o claro protagonista da Linha do Douro. Mas não é o único. Basta olhar com mais atenção para perceber que, entre os visitantes, continuam a viajar histórias diferentes. Seja pela língua falada ou pelo entusiasmo em captar imagens de tudo o que é possível.

Entre os passageiros, há quem viaja pela primeira vez e também quem esteja a desbloquear memórias.

Joaquim Ribeiro é um desses casos que o Conta Lá encontrou. Fez a viagem há cerca de 20 anos e decidiu repeti-la nestes últimos dias. “Gostei imenso na altura. E queria voltar.” O que encontrou não o surpreendeu: diz mesmo que encontra muitas coisas “intocáveis”: “A paisagem está igual”.

O que mudou foi o ambiente dentro do comboio. “Agora são mais os turistas”, nota o passageiro natural de Amarante, que acrescenta mesmo a importância disto: “É importante para a região e para a economia”.

Ao seu lado, Adrião Mendes estreia-se na linha. Foi “para passear e conhecer um pouco do país” e sai convencido: “Isto é lindíssimo. Para mim, é uma das regiões mais bonitas de Portugal.”

Essa ideia repete-se noutras vozes portuguesas ao longo da viagem. Cristina Santos vive no Porto e já perdeu conta às vezes que fez o percurso. Continua a voltar. “Isto não cansa. As paisagens são lindas”. 

Num tempo em que viajar para fora é muitas vezes a primeira escolha, há quem insista em inverter a lógica. Conhecer primeiro o que está perto. Percorrer o que é nosso.

O turismo levou mais visibilidade à região e enche as carruagens, colocando a linha nos roteiros internacionais. Mas não a alterou nem um pouco: o traçado continua o mesmo, desenhado há mais de um século.